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Não sou uma ave estrigiforme. Portanto nada de superstição de que adivinho a morte com o meu piar e esvoaçando meu pensamento. Símbolo da sabedoria, estou longe de ser. Mas giro meu pescoço 180 graus como elas e, atento, passo em revista o que leio por aí, acrescentando fatos aos hiatos. Sem maiores pretensões, é bom que eu o diga. Sou pessoa insatisfeita com a minha cara. Afinal, não me esculpi como gostaria. Constato diferenças entre a esquerda e a direita. Gosto mais da esquerda. Não que me pareça ser ela a ideal, mas é menos imperfeita. O meu olhar esquerdo vê melhor as coisas direitas. Já o direito se turva quando eu o fixo nas esquerdas. Meu oftalmologista atribui as distorções ao meu mau jeito de focar as coisas. A parte direita do lábio revela ser bem mais confiável quando se manifesta em falas de muito pouca importância. Também a orelha esquerda e bem melhor recortada e me ardem menos quando de mim falam mais. No mais, jornalista de profissão e marchand por opção, pai de filha e avô de neto. Torcedor do Fluminense, amante de corridas de cavalos e orgulhosamente carioca.

domingo, 23 de janeiro de 2011

MARES DE LAMA... RIOS DE PROMESSAS

MARES DE LAMA... RIOS DE PROMESSAS
A cada nova tragédia, surgem os governantes com ares compungidos a anunciar providências que dormitavam desde a tragédia anterior. Ninguém dúvida que seja difícil mensurar qual seja o volume necessário de água vinda dos céus para fazer o inferno na terra. Mas as evidências demonstram que políticas habitacionais e ambientais que poderiam amenizar os efeitos causados pelas enxurradas só são lembradas nas falas de efeito diante da destruição e dos cadáveres dos que não são poupados pela negligência.
E nos chegam os salvadores dos lares destruídos anunciando áreas seguras desapropriadas para construção de novas moradias. Se elas existiam e estavam lá à disposição dos projetos por que não iniciativas que os executassem? O dinheiro há, diz a Presidenta Dilma, que culpa as prefeituras de não apresentarem a planilha para que seja liberado. A cada desabamento chega o Governador ainda que com algum atraso, põe o Pezão na lama, sobe no palanque e insinua que o meã culpa fique por conta dos que desafiam a lei da gravidade com seus barracos coloridos ou não em encostas de grande risco. E seguem-se anúncios de verbas liberadas para aluguéis sociais, permissão de aumento de prazos para pagamentos de tributos e benesses como as de permitir que o trabalhador sobrevivente possa sacar quatro mil e tantos reais do seu FGTS para reconstruir sua vida. Nada mais surreal.
Ninguém tem dúvida que novas chuvas virão. E elas chegarão com paus e pedra no fim do caminho, sem a poesia de Tom Jobim, mas com corpos despedaçados e putrefatos de milhares de brasileiros que se perfilaram diante da obrigatoriedade de irem às urnas na crença de um Brasil mais justo e igualitário.